Aprender ciência também pode envolver contagem regressiva, trabalho em equipe, testes, ajustes, lançamentos e muita expectativa no céu. É com essa proposta que a Jornada de Foguetes reúne estudantes e professores de todo o Brasil em uma das principais experiências práticas ligadas à Astronomia, Astronáutica e ao ensino de ciências no país.
Promovida pela Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica (OBA), a Jornada de Foguetes recebe equipes com melhor desempenho na Olimpíada Brasileira de Foguetes (OBAFOG). O evento acontece em Barra do Piraí, no interior do Rio de Janeiro, entre agosto e dezembro, e reúne alunos do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental e do Ensino Médio classificados em diferentes modelos de foguetes.
Durante a Jornada, os participantes têm contato com palestras, oficinas, sessões de planetário, observação do céu noturno, apresentações de projetos e, claro, os aguardados lançamentos de foguetes. As atividades permitem que os estudantes visualizem, na prática, conteúdos estudados em sala de aula, como força, pressão, reações químicas, aerodinâmica, trajetória, gravidade, medidas e trabalho colaborativo.
Os foguetes desenvolvidos pelas equipes variam conforme o nível de complexidade. Há modelos movidos a água e ar comprimido, vinagre e bicarbonato de sódio, além de projetos de propulsão sólida, foguetes multiestágios e lançamentos com sistema de paraquedas e eletrônica embarcada para medir a altura atingida.
Para o coordenador da OBA e da OBAFOG, professor e astrônomo João Batista Garcia Canalle, a Jornada contribui para consolidar o aprendizado científico, estimular a colaboração entre os estudantes e tornar o ensino mais atrativo por meio de atividades práticas.
– Os alunos e professores ampliam seus conhecimentos e podem compartilhá-los com outros colegas, despertando ainda mais interesse pela ciência e tornando o ensino mais interativo – ressalta Canalle.
Trabalho em equipe, criatividade e resolução de problemas

Também participam da Jornada de Foguetes os estudantes do Sesi – Centro Educacional 101 Julia Guerra Menoni, de 16 anos, Otávio Manderchiche, de 16 anos, e Vitor Hugo da Silva Ferreira, de 17 anos. Eles vão participar novamente do foguete modelo 5, com Propelente sólido. Ano passado, conseguiram a marca de 542,5 metros de distância. Orientados pelo professor Edvaldo Milan, também fundador da AmeriFOG, a Copa Americanense de Foguetes, eles chegam à competição pela segunda vez consecutiva, experiência que, segundo o grupo, permite perceber a evolução desde a primeira participação.
Para os estudantes, os lançamentos de foguetes representam uma oportunidade de colocar em prática conhecimentos que podem contribuir para futuros projetos e até para suas carreiras. Ao longo do processo, eles destacam aprendizados ligados ao trabalho em equipe, planejamento, testes, criatividade e resolução de problemas, além da compreensão de que os erros fazem parte do caminho científico.
Para os jovens, participar novamente da Jornada é uma oportunidade de trocar experiências, conhecer pessoas que compartilham dos mesmos interesses e continuar buscando evoluir a cada nova edição. Segundo eles, além do conhecimento técnico, a vivência também ajuda a desenvolver responsabilidade e outras habilidades importantes para qualquer área que escolham seguir no futuro.

Estudantes de Brasília levam projeto desenvolvido no IFB
Entre as equipes classificadas para a Jornada de Foguetes 2026 está a MED STATION, formada por estudantes do Instituto Federal de Brasília (IFB), Campus Taguatinga. Um dos alunos do grupo, Ruann Paraguassú, de 18 anos, diz que a escola já conquistou os títulos de campeão e vice-campeão nos anos de 2017, 2018, 2019 e 2025.
– O troféu de vice-campeão foi conquistado em 2025 por nossa equipe, que também recebeu o prêmio de Melhor Design Técnico, concedido pelo SESI em reconhecimento à qualidade do projeto desenvolvido – relembra.

Segundo Ruann, participar da olimpíada vai muito além da construção de foguetes. Para ele, a experiência permite que os estudantes usem o raciocínio para idealizar, projetar e colocar em prática aquilo que aprendem em sala de aula.
– A olimpíada nos ajuda a compreender e visualizar, na prática, os conceitos estudados, facilitando a absorção do conteúdo – destaca Ruann.
A equipe do Ruann Paraguassú conta com os estudantes Pedro Henrique, Lucas Gabriel, João Beltrame, Diego Humberto e Hilquias Xavier, com idades entre 17 e 18 anos.

Foguete com eletrônica embarcada


Outro estudante classificado para a Jornada de Foguetes 2026 é o Victor Trevisan de Souza, de 17 anos, estudante do Objetivo Centro, de Sorocaba (SP). Orientado pelo professor Evanway Selberg Soares, ele participará do foguete modelo 7, modalidade que envolve eletrônica embarcada e sistema de paraquedas, com lançamento quase vertical.

Para Victor, atividades como a Jornada são importantes porque estimulam diferentes habilidades, especialmente a resolução de problemas, a criatividade e a capacidade de lidar com o lado emocional de desenvolver projetos e participar de competições. Segundo o estudante, essa experiência também se reflete na escola, aumentando o interesse e a curiosidade pelos conteúdos ensinados, além de ajudar na conexão entre diferentes disciplinas.
O desafio de participar do modelo 7, segundo Victor, veio justamente pela novidade da categoria. O desenvolvimento do foguete começa com a análise das regras, do orçamento, da logística e das metas a serem alcançadas. Depois, envolve o design dos mecanismos, protótipos, testes, simulações, busca por fornecedores, escolha de materiais, montagem final e lançamento.
– Os principais desafios envolvem projetar as diferentes partes com a eficiência necessária para atingir a meta final, mesmo com todas as restrições, além de conciliar tudo isso com a vida pessoal e os estudos do currículo escolar – afirma o aluno.
“Dobramos a aposta”

Outra equipe classificada para a Jornada de Foguetes é formada pelos estudantes Anne de Goes, Davi Paulino e Luis Guilherme, do Sesi Itapetininga – Centro Educacional 124, em São Paulo. O grupo aceitou o desafio de participar do nível 6, modalidade de foguete multiestágio, após experiências anteriores nos níveis 3 e 4. Segundo os alunos, a atividade permite aplicar, na prática, conceitos aprendidos em sala de aula, especialmente em Física e Química, além de desenvolver trabalho em equipe, organização, raciocínio e maior interesse pelos estudos.
Para desenvolver o foguete, os estudantes se basearam em estudos de foguetes reais, simulações, testes e trabalho colaborativo. O principal desafio, segundo a equipe, foi lidar com a complexidade do nível 6, que exige maior precisão, conhecimento científico e a construção de um sistema capaz de realizar a liberação do segundo estágio durante o lançamento.
O professor Rodrigo Raffa destaca que os estudantes voltam transformados da Jornada, pelo contato com outros jovens, oficinas práticas, palestras e projetos de alto nível. Ele lembra que o Sesi Itapetininga conquistou o primeiro lugar nas três últimas participações, em 2023, 2024 e 2025, no nível 4, e que a decisão de avançar para o nível 6 representa uma nova etapa.
– Decidimos dobrar a aposta, evoluir um pouco mais. O nível 6 é mais exigente, porque envolve a técnica de desacoplar um dos estágios, o que exige muito planejamento e engenharia – afirma.
Para o professor, a experiência amplia o repertório dos estudantes e pode abrir caminhos para futuros engenheiros, cientistas, astrônomos, professores de Física ou até astronautas.

Rodrigo também ressalta o impacto emocional da Jornada na formação dos jovens. Segundo ele, os alunos retornam da experiência “transformados”, após vivenciarem dias de aprendizado intenso, convivência com outros estudantes e contato com projetos de alto nível.
– Eu penso muito em oportunizar aos estudantes que buscam e correm atrás o melhor para eles, para que ampliem o repertório e o próprio potencial. Quem sabe dali saiam novos engenheiros, astronautas, professores de Física, cientistas ou astrônomos – comenta.
Para ele, participar da Jornada é uma forma de abrir possibilidades e mostrar aos alunos que a ciência pode ser caminho, descoberta e futuro.
Sobre a OBAFOG
A Olimpíada Brasileira de Foguetes possui sete modelos de foguetes, com desafios que acompanham diferentes níveis de complexidade. As modalidades vão de projetos mais simples, movidos a ar comprimido, água e ar comprimido ou reações químicas, até foguetes de propulsão sólida, multiestágios e lançamentos com sistema de paraquedas e eletrônica embarcada.
A participação na Jornada de Foguetes é exclusiva para estudantes que participaram da OBAFOG no ano corrente, por meio de suas instituições de ensino. Para participar da olimpíada, basta que um professor inscreva a escola na OBA e cadastre os estudantes. Com isso, a instituição também passa a participar automaticamente da OBAFOG.
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