Estudante transforma experiência nas olimpíadas científicas em incentivo para outras meninas

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Tibérius Drumond
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Qual o impacto de uma medalha numa olimpíada científica na vida de uma jovem? Para alguns, só um prêmio. Para outros, uma grande jornada que pode inspirar muitas vidas. Foi a conquista da prata na Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica (OBA), no 9º ano do ensino fundamental, transformou a trajetória da estudante Carolina Lopasso, uma das Embaixadoras Jr da Comunidade Científica Jr.

Carol conta que antes de participar de uma olimpíada do conhecimento, apesar do interesse pela área desde pequena, não se enxergava no universo olimpíco. Ela conta que costumava observar principalmente meninos participando das competições, conquistando medalhas e discutindo as provas, enquanto a presença feminina era bem menor.

– Era como se eu não pertencesse a esse mundo e ele também não fizesse parte de mim, mesmo amando a ciência desde pequena – relata.

A decisão de participar da OBA, porém, mudou essa percepção. Após uma aula preparatória e algumas horas de estudo em casa, Carolina acertou nove das dez questões da prova e conquistou sua primeira medalha.

No mesmo ano, ela também ganhou uma medalha de prata na Olimpíada Nacional de Ciências e foi selecionada para integrar uma equipe de robótica que participaria do Super Festival de Robótica da Astromaker.

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Carolina Lopasso recebendo a medalha na ONANO

Quando a falta de representatividade vira barreira

Apesar das conquistas, Carolina também encontrou obstáculos que iam além da dificuldade das provas. Em diferentes competições, especialmente nas áreas de Ciências Exatas e Biológicas, percebeu que havia poucas meninas participando.

Segundo a estudante, essa ausência de representatividade chegou a provocar dúvidas sobre sua própria capacidade e sobre seu pertencimento àquele ambiente.

– Mesmo sabendo que eu tinha a mesma capacidade daqueles meninos presentes na sala, é como se eu me paralisasse- lembra.

Ela conta ainda que chegou a desistir de algumas competições, incluindo edições do Canguru de Matemática, da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP) e até mesmo da OBA, competição na qual já havia conquistado medalhas.

Com o tempo, porém, essa experiência passou a alimentar outro objetivo: mostrar para outras meninas que elas também podem participar das olimpíadas científicas.

Pioneirismo na Olimpíada de Química na própria escola

Um dos momentos mais importantes de sua trajetória aconteceu na Olimpíada de Química do Estado de São Paulo (OQSP). Carolina tornou-se a primeira menina de sua escola a avançar na competição e também a única estudante da instituição a conquistar a classificação em duas oportunidades.

– Foi a confirmação de que eu realmente tinha um lugar naquele ambiente que, durante muito tempo, senti que não parecia ter sido feito para meninas – afirma.

A estudante também passou a enxergar a própria participação como uma forma de abrir caminhos. Segundo Carolina, quando uma menina consegue ocupar esses espaços, outras estudantes podem começar a imaginar que também são capazes de participar e chegar às etapas mais avançadas.

Esse efeito começou a aparecer dentro da própria escola. Após suas participações, algumas meninas passaram a procurar Carolina para perguntar como funcionavam as olimpíadas ou como poderiam se inscrever.

Para a Embaixadora Jr, mesmo pequenas mudanças já representam um avanço: “Quando alguém da nossa própria escola ocupa aquele espaço, ele parece um pouco menos distante”, destaca.

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Carolina em um laboratório de química

Incentivo pode começar dentro da escola

Na avaliação de Carolina, a baixa participação feminina em competições de Matemática, Física, Química e outras áreas científicas não está relacionada à falta de capacidade ou interesse.

A sensação de não pertencimento, a falta de incentivo e a ausência de referências femininas podem fazer com que muitas estudantes desistam antes mesmo de tentar.

Para mudar esse cenário, ela defende que as escolas apresentem as olimpíadas aos estudantes desde cedo, sem restringir as oportunidades somente àqueles que já demonstram facilidade nas disciplinas.

Carolina também sugere a criação de grupos acessíveis de preparação, maior incentivo dos professores, divulgação de cientistas mulheres e a ampliação de iniciativas de mentoria e programas voltados à participação feminina nas competições.

Olimpíadas do conhecimento abriram caminhos para a pesquisa

As competições também aproximaram Carolina do ambiente acadêmico. Antes das olimpíadas, ela imaginava que teria um contato mais profundo com a ciência somente durante a graduação. As competições mostraram que estudantes da Educação Básica também podem participar de projetos, conhecer universidades e desenvolver pesquisas.

Na OQSP, por exemplo, os participantes tiveram contato com os laboratórios do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP), onde puderam realizar experimentos enquanto aguardavam a correção da prova.

Em 2026, Carolina também passou a participar, na modalidade voluntária, do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica Júnior da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Além disso, após participar da OQSP em 2025, foi convidada para apresentar uma pesquisa sobre o papel da cana-de-açúcar na transição energética em um fórum de pós-graduação realizado em sua cidade.

Na ocasião, era a pessoa mais jovem da sala e teve seu trabalho avaliado pelos mesmos critérios utilizados para pesquisadores mais experientes.

Outra experiência marcante aconteceu quando foi convidada pela própria escola para ministrar uma palestra sobre a Olimpíada Nacional de Ciências. Com a edição voltada ao tema Meninas e Mulheres na Ciência, Carolina teve a oportunidade de compartilhar sua experiência com um público formado majoritariamente por meninas.

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Conhecimento compartilhado

A vontade de ajudar outros estudantes também deu origem ao Studywcaz ( https://www.instagram.com/studywcaz/ ), projeto criado por ela para compartilhar dicas de estudo, informações sobre olimpíadas científicas e oportunidades acadêmicas.

A iniciativa surgiu depois que ela percebeu que muitos estudantes sequer conheciam essas competições ou não tinham acesso aos mesmos recursos e informações.

Mesmo considerando o projeto ainda pequeno, Carolina espera ampliar seu alcance e ajudar estudantes de diferentes regiões do país a descobrirem novas oportunidades e acreditarem mais no próprio potencial.

“Não deixe o medo decidir por você”

Depois de uma trajetória marcada por conquistas, dúvidas e descobertas, Carolina deixa um conselho para meninas que gostam de ciência, mas ainda têm receio de participar de uma olimpíada. Ela deixa o recado: “Não deixe o medo decidir por você.”

Para ela, ninguém precisa se sentir completamente preparado antes de começar. Uma competição científica também não precisa ter como único objetivo a conquista de uma medalha: pode representar o primeiro contato com uma futura área de interesse, revelar uma habilidade ou simplesmente proporcionar aprendizado.

A mensagem que Carolina espera transmitir com sua própria história é justamente a de que meninas não precisam esperar sentir que pertencem a determinado espaço para começar a ocupá-lo.

– Não quero apenas conquistar meu espaço na ciência, quero ajudar a tornar esse espaço mais acolhedor para as meninas que ainda estão por vir. E para quem gosta de ciência, tente. Mesmo que tenha medo de não passar, mesmo que ache que não vai ganhar uma medalha – conclui.

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