A divulgação científica nas redes sociais tem aproximado milhares de jovens da ciência de uma forma mais leve, acessível e conectada ao cotidiano. Entre os criadores que vêm se destacando nesse cenário está Marina Rockenbach, estudante de Química da UFRGS e criadora do perfil QuímiCafé. De modo irreverente, ela transforma conceitos científicos em conteúdos descontraídos e educativos para a internet.
Em entrevista à Comunidade Científica Jr, Marina contou que o projeto surgiu durante a pandemia. Ela também falou sobre sua trajetória na graduação e refletiu sobre os desafios do ensino de ciências no Brasil. Segundo ela, o QuímiCafé nasceu inicialmente como uma forma de se manter conectada à universidade em meio ao isolamento social, mas acabou se tornando também um espaço de divulgação científica e troca com o público.
Ao longo da conversa, a universitária destacou a importância da contextualização no ensino da ciência e defendeu o uso de linguagens mais próximas da realidade dos jovens, incluindo memes e humor, como ferramentas de aprendizagem. Marina também comentou sobre o impacto positivo que recebe dos seguidores, especialmente de estudantes que passaram a enxergar a Química com outros olhos após conhecerem o perfil.
Além disso, Marina falou sobre olimpíadas científicas, rotina universitária e compartilhou recomendações de livros, filmes e séries para quem deseja mergulhar mais no universo da ciência.
Confira abaixo a entrevista completa da Comunidade Científica Jr (CCJr).
Entrevista com Marina Rockenbach, criadora do canal QuímiCafé
Como tem sido sua experiência na graduação em Química na UFRGS? Por que escolheu esse curso?
A minha experiência na graduação da UFRGS é maravilhosa. Eu escolhi Química porque, no ensino médio, me apaixonei pela disciplina e pela minha professora. Fiz uma iniciação científica na escola, com produção de biodiesel, junto com uma colega, e a partir dessa experiência entendi que gostaria de uma carreira em que eu pudesse ter contato com o laboratório. Eu me apaixonei pela Química. A escolha pela licenciatura veio um pouco depois, em um processo de autoconhecimento. O QuímiCafé foi uma das principais motivações para eu entender que, de fato, o que eu gostava era dar aula.

Como surgiu a ideia de criar o QuímiCafé? De onde veio o nome? O que te motivou a transformar a química em conteúdo nas redes sociais?

O QuímiCafé surgiu como um produto da pandemia. Eu estava no terceiro semestre da faculdade, muito encantada com tudo que estava vivendo, e houve um período em que a gente ficou parado. Ele surgiu como uma tentativa de me manter conectada com a Química e com a faculdade. Depois, foi ganhando novos objetivos e eu fui aprendendo muito com ele.
O nome surgiu de forma meio espontânea. Eu sempre gostei de trocadilhos e gosto muito de café, então achei que ficou um nome legal.
O que me motivou foi o universo da divulgação científica. Foi uma troca mútua, porque eu fui aprendendo e descobrindo a importância de traduzir a ciência e colocá-la de maneira mais contextualizada no nosso dia a dia.
Antes do perfil, você já tinha vontade de trabalhar com divulgação científica ou isso nasceu junto com o projeto?
Eu não tinha vontade de trabalhar com divulgação científica antes do QuímiCafé. Foi o próprio projeto que me apresentou esse conceito e esse mundo. Foi algo muito natural, que fui aprendendo conforme o projeto foi tomando forma.
Seu conteúdo tem um tom leve e muitas vezes bem-humorado. Você acredita que o humor ajuda a quebrar a barreira que muitas pessoas têm com a ciência?
Eu acredito muito que o tom leve e bem-humorado é importante. O meme é uma ferramenta de ensino muito potente, e não vejo por que a química não possa ter relação com essa linguagem. Fico feliz que isso fique perceptível. A química não é só sobre uma parte mais dura ou mais séria. Essa leveza ajuda, e acredito que a linguagem das redes sociais pode ser uma ferramenta de aprendizagem.

Você mostra bastante sua rotina de estudos e trabalho. Isso faz parte de uma estratégia ou surgiu naturalmente? Como você tem roteirizado o seu trabalho?
Eu tento mostrar minha rotina da maneira mais orgânica possível, para que o QuímiCafé seja uma extensão do meu dia, e não mais uma demanda. Eu já tenho as demandas da faculdade, provas, trabalhos e aulas particulares.
Eu roteirizo meus conteúdos muito com base no que tenho acesso na universidade: experimentos, leituras de artigos e trabalhos já publicados. A partir dessas vivências, tenho ideias e faço uma releitura, pensando em como traduzir um conteúdo mais complexo, como um artigo, em um vídeo curto.
Na sua visão, qual é o maior erro na forma como a ciência é ensinada hoje?
Essa pergunta me atravessa de muitas formas, porque é o cerne da minha pesquisa na licenciatura. A gente busca entender onde estão as fraquezas no ensino e como transformá-las em pontos fortes.
Não existe um único erro. É uma mistura de muitas coisas: questões políticas, estigmas sobre o que é a ciência, a visão que se tem do cientista, estruturas das escolas, formação de professores, materiais disponíveis. São muitos fatores. É algo que eu venho tentando entender ao longo da graduação.
Você já recebeu relatos de seguidores que passaram a gostar mais de química por causa do seu conteúdo? Algum te marcou?
Sim, já recebi muitos relatos. Pessoas que tinham dúvida se queriam fazer Química ou estavam indecisas entre áreas como engenharias e farmácia e, por causa do meu perfil, se convenceram ou conseguiram tomar uma decisão.
Também recebo mensagens de pessoas que confiam em mim para contribuir com essas escolhas. Isso me gera uma sensação de muita gratidão, por perceber que a forma como me comunico transmite o que eu sinto.
Você já participou de alguma olimpíada científica? Quais?

Como estudante, eu nunca participei de uma olimpíada científica. Já tive experiências como professora e monitora auxiliando alunos. Este ano, estou inscrita na OBESQ (Olimpíada Brasileira de Ensino Superior em Química) e estou bem feliz e ansiosa para participar.
Como você vê o papel das olimpíadas científicas na formação dos estudantes?
Eu acredito que o meu conteúdo está alinhado com os objetivos das olimpíadas, que envolvem contextualização e pensamento crítico. Não é sobre decorar, mas criar ferramentas de pensamento para analisar a natureza das coisas.
As olimpíadas ajudam a trazer essa visão mais aplicada da ciência, indo além da teoria.
Você acredita que criadores de conteúdo como você podem ajudar a aproximar os jovens dessas competições?
Sim. Podem ajudar de forma direta, divulgando as olimpíadas, e de forma indireta, contribuindo para o desenvolvimento do pensamento crítico e de uma visão mais contextualizada da ciência.
Quais são os próximos planos para o QuímiCafé?
Os planos do QuímiCafé estão muito ligados aos meus planos pessoais. Meu objetivo principal agora é me formar.
Até a metade do ano que vem, o perfil deve acompanhar esse processo final da graduação, mostrando estágios, TCC e vivências dessa fase, além de continuar compartilhando experimentos e ideias que surgem ao longo desse caminho.
Quais filmes ou livros você recomendaria para quem quer começar a se interessar mais por ciência?
Um livro que sempre indico é Os Botões de Napoleão, que fala sobre 17 moléculas que mudaram a história.
Sobre filmes e séries: Einstein e Eddington, Chernobyl, documentários sobre radioatividade, Breaking Bad, Oppenheimer e Interestelar. São conteúdos que mostram a ciência de forma muito interessante.
Se você pudesse dar um único conselho para um jovem que sonha em seguir na ciência, qual seria?
Seja corajoso. É um caminho muito bonito, mas cheio de transformações.

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