Telescópios, binóculos e astrofotografia: comece na astronomia sem erros

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Tibérius Drumond

Observar o céu é uma das portas de entrada mais fascinantes para a ciência, mas também uma das que mais geram frustrações quando o primeiro passo é dado sem orientação. A compra precipitada de um telescópio inadequado, expectativas irreais criadas por propagandas e a falta de conhecimento básico sobre o céu noturno estão entre os principais obstáculos enfrentados por iniciantes na astronomia.

Para ajudar estudantes, professores e entusiastas a evitarem esses erros comuns, a Comunidade Científica Jr ouviu dois especialistas com ampla experiência em ensino, olimpíadas científicas e formação de novos observadores: o professor Heliomárzio Moreira, astrônomo amador há mais de 35 anos e preparador de estudantes para competições nacionais e internacionais, e o professor Dr. Guilherme Pereira, coordenador da Olimpíada Pernambucana de Astronomia e Astronáutica (OPA) e docente do IFPE.

Professor Heliomárzio Moreira explica sobre telescópios

Na entrevista, os professores explicam por que estudar o céu vem antes do equipamento, quando binóculos são mais indicados do que telescópios, quais características realmente importam na escolha de um instrumento e como é possível iniciar na astrofotografia usando até mesmo um celular. O resultado é um guia direto, realista e acessível para quem deseja começar a explorar o Universo com os pés no chão e os olhos nas estrelas.

Em resumo, 9 dicas para não cair no erro com telescópios:

• Antes de comprar um telescópio, é essencial estudar o céu e aprender a identificar constelações, estrelas e planetas.
• Binóculos são o melhor instrumento inicial por serem mais simples, baratos e oferecerem campo de visão amplo.
• Telescópios refletores são mais indicados para cidades por serem mais luminosos; refratores funcionam melhor em céus escuros.
• A qualidade óptica, o diâmetro da objetiva e a razão focal são mais importantes do que a ampliação anunciada.
• Promessas de aumentos exagerados e equipamentos muito baratos costumam gerar frustração.
• Para uso pessoal, equipamentos intermediários com boa óptica são suficientes; escolas precisam de modelos mais robustos.
• Binóculos facilitam a observação de grandes áreas do céu, constelações, cometas e aglomerados.
• A astrofotografia pode começar com celular, especialmente para a Lua, usando ajustes manuais.
• Fotografar nebulosas e galáxias exige céu escuro, acompanhamento do movimento do céu e técnicas mais avançadas.

Professor Guilherme Pereira

Leia a entrevista completa dos professores Heliomárzio Moreira e Guilherme Pereira

CCJr: O que um iniciante realmente precisa saber antes de comprar o primeiro telescópio?

Heliomárzio Moreira: Antes de qualquer instrumento, é essencial conhecer o céu. Saber identificar estrelas, constelações e diferenciar planetas de estrelas a olho nu é a base. Mapas celestes ou aplicativos ajudam muito nesse processo. Inclusive, antes do telescópio, os binóculos são a melhor escolha para iniciar.

Guilherme Pereira: Assim como ninguém dirige sem aprender as regras de trânsito, não se deve comprar um telescópio sem estudar Astronomia básica. O telescópio mostra apenas uma parte do conhecimento. Primeiro é preciso decidir o que se quer observar e entender o céu como um todo.


CCJr: Quais são os principais tipos de telescópios e para quem eles são indicados?

Heliomárzio Moreira: Os principais são os refratores e os refletores. Os refletores costumam ter melhor custo-benefício e menos problemas ópticos. Já os refratores baratos geralmente sofrem com aberração cromática. Tudo depende da finalidade do uso.

Guilherme Pereira: Em cidades com muita poluição luminosa, os telescópios refletores, mais luminosos, são mais indicados. Em locais mais escuros, os refratores funcionam bem e oferecem imagens mais nítidas.


CCJr: Quais características são mais importantes ao escolher um equipamento?

Heliomárzio Moreira: O iniciante costuma se iludir com grandes ampliações, mas isso não é o mais importante. A razão focal, o diâmetro da objetiva e a qualidade óptica fazem muito mais diferença do que o “aumento” anunciado na caixa.

Guilherme Pereira: Eu sempre recomendo começar estudando e, se possível, fazer um curso básico. Depois disso, iniciar com binóculos é ideal. Eles mostram um campo amplo do céu e ajudam o observador a entender melhor o que está vendo.

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Fotos feitas por telescópios da Lua e dos planetas Júpiter e saturno. Imagens do professor Heliomárzio Moreira

CCJr: Quais erros mais comuns devem ser evitados na compra de um telescópio?

Heliomárzio Moreira: Comprar sem saber para que vai usar e confiar em propagandas que prometem ampliações irreais. Telescópios muito baratos costumam virar objetos esquecidos em poucas semanas.

Guilherme Pereira: Outro erro é comprar telescópios escuros demais. Eles até funcionam de dia, mas à noite mostram muito pouco além da Lua.

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Telescópios refratores e refletores – Fotos do professor Heliomárzio Moreira

CCJr: Quanto custa, de forma realista, um bom equipamento de entrada?

Heliomárzio Moreira: Para uso pessoal, um bom telescópio de entrada fica entre R$ 750 e R$ 1.200. Para escolas, modelos mais robustos, como refletores de 150 mm, custam entre R$ 3.000 e R$ 4.000.

Guilherme Pereira: Hoje, um equipamento inicial realmente bom gira em torno de R$ 4.000. Telescópios muito baratos geralmente não entregam qualidade para observação astronômica.

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Professor Guilherme Pereira é também coordenador da OPA, Olimpíada Pernambucana de Astronomia e professor do IFPE

CCJr: Binóculos são realmente uma boa opção para iniciantes?

Heliomárzio Moreira: Sem dúvida. Eles têm campo visual amplo, são mais baratos e facilitam muito a localização de objetos no céu.

Guilherme Pereira: Concordo totalmente. Muitos cometas foram descobertos com binóculos. Eles permitem observar grandes regiões do céu e são excelentes para começar.


CCJr: É possível iniciar na astrofotografia usando apenas um celular?

Heliomárzio Moreira: Sim. Dá para fotografar a Lua com celular usando técnicas simples, como o método afocal. Com ajustes corretos de ISO e exposição, os resultados podem surpreender.

Guilherme Pereira: Astrofotografia é ciência e arte. Com um celular em modo manual já é possível começar. O mais importante é testar, errar e aprender aos poucos.

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Fazer foto do Sol exige cuidados extras. Foto Heliomarzio Moreira

CCJr: O que muda quando o objetivo é fotografar nebulosas e galáxias?

Heliomárzio Moreira: A técnica se torna mais avançada. É necessário acompanhamento do movimento do céu, filtros, longas exposições e processamento das imagens.

Guilherme Pereira: Além disso, o céu precisa ser mais escuro. A poluição luminosa interfere muito. Conhecer a escala de Bortle ajuda bastante nesse planejamento.


Quais são os erros mais comuns cometidos por quem está começando na astrofotografia?


Heliomárzio Moreira: Os erros mais frequentes são imagens tremidas, exposição incorreta e falta de planejamento. É importante conhecer o objeto que será fotografado, sua magnitude e posição no céu antes de iniciar os registros.


Guilherme Pereira: O principal erro é não testar. O iniciante deve começar com o próprio celular, variar configurações como ISO e tempo de exposição e aprender com a prática. A experiência ajuda a entender os limites do equipamento.


Quais aplicativos, softwares ou acessórios simples podem ajudar iniciantes?


Heliomárzio Moreira: Para captura e processamento, existem softwares gratuitos que auxiliam bastante, além de programas de edição para o acabamento das imagens. O uso dessas ferramentas melhora significativamente o resultado final.


Guilherme Pereira: Aplicativos de mapa celeste ajudam na localização dos objetos e câmeras de celular em modo manual já permitem bons testes. O importante é evitar configurações automáticas e explorar os ajustes de forma consciente.

Dica:

Para quem quer aprender mais sobre astronomia, o professor Guilherme Pereira tem um canal no Youtube que explica tudo sobre astronomia. Veja mais pelo link: https://www.youtube.com/@guilhermepereiraifpe

Curiosidade:

Professor Guilherme também comentou sobre algumas ilusões de ótica. Por exemplo, nessa foto feita em 03/12/2025, dependendo de quem vê, pode observar um cavaleiro lutando contra um dragão, um desenho que lembra o santo católico Jorge travando o confronto na Lua. Possivelmente, foi daí que nasceu a lenda de que ele está no satélite natural da Terra. E você, o que vê?

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