Estudante supera atrofia muscular espinhal e fica entre os melhores em Matemática

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Tibérius Drumond

Ricardo Oliveira pode ser considerado um “arqueólogo dos números”. Ele conseguiu transformar desafios em descobertas por meio das olimpíadas científicas. Natural de Várzea Alegre, no sertão do Ceará, Ricardo é um dos maiores exemplos de superação e amor pelo conhecimento. Portador de atrofia muscular espinhal, ele enfrentou desde cedo as barreiras físicas e sociais impostas pela realidade de um interior com pouco acesso à educação formal. O que poderia ter sido um limite se transformou em combustível para uma das trajetórias mais admiráveis das olimpíadas científicas brasileiras.

Sem acesso à internet, computador ou mesmo a livros atualizados, ele encontrou na curiosidade sua maior ferramenta. “Basta lápis, papel e um pouco de criatividade. Em entrevista exclusiva para a Comunidade Científica Jr, Ricardo conta que a matemática sempre foi mais acessível para mim e é a base de todas as ciências exatas”, conta. Ele se apaixonou pela área estudando sozinho, por horas a fio, e descobriu que o estudo podia ser mais do que um dever — era um caminho para compreender o mundo e se reinventar.

Ricardo recebeu medalha na OBMEP em evento que contou com a presença da Presidenta Dilma Rousseff

O “arqueólogo dos números”

Um de seus relatos mais marcantes mostra o quanto o aprendizado pode nascer da curiosidade: ao encontrar um livro antigo de matemática, sem explicações nem respostas, ele precisou “fazer uma investigação profunda, como um arqueólogo, para decifrar aquele estranho dialeto”. A metáfora resume sua jornada: diante de cada equação ou teoria, Ricardo não apenas buscava respostas — ele escavava o conhecimento como quem descobre tesouros enterrados no tempo.

O resultado desse esforço é impressionante. Ricardo acumulou cinco medalhas de ouro e duas de prata na OBMEP (Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas), além de cinco ouros e uma prata na OBA (Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica) e uma medalha de bronze na Olimpíada de Língua Portuguesa. “As olimpíadas foram fundamentais para minha formação. Elas valorizam o aluno que se dedica, algo que muitas vezes falta nas escolas”, reflete.

Estudante Ricardo recebeu a medalha de ouro na OBMEP do presidente Lula

Mesmo com as dificuldades físicas, Ricardo nunca cogitou desistir. “Podemos dizer que foi falta de opções. Se pensarmos bem, não existe outro caminho para mudar de vida senão por meio dos estudos. Claro que um pouco de disciplina ajuda bastante”, diz com naturalidade. Ele destaca que o apoio familiar foi essencial: “Não importa o quão bom você seja, nunca conseguirá ir muito longe sem o apoio de outras pessoas.”

Hoje, Ricardo continua trilhando o caminho do conhecimento com serenidade e propósito. Ele acredita que a matemática não é apenas um conjunto de números, mas uma linguagem universal capaz de transformar a maneira como enxergamos o mundo. “A matemática me fez ver o mundo com outros olhos. Quando se aprende a usá-la da maneira certa, ela se torna uma ferramenta poderosa”, conclui o estudante que, com o olhar de cientista e a alma de arqueólogo, transformou o sertão em um verdadeiro laboratório de sonhos e descobertas.

Confira a entrevista exclusiva da Comunidade Científica Jr com o multimedalhista Ricardo Oliveira:

Como nasceu seu interesse pela matemática?
Na verdade, sempre amei as ciências exatas. Só que a matemática sempre foi mais acessível para mim: basta lápis, papel e um pouco de criatividade. Além disso, ela é a base de todas as ciências exatas. Eu, meio que, cultivei esse amor pela matemática.

Quais áreas da matemática mais te encantam? Por quê?
Sou fascinado pela teoria dos números e pela combinatória. Sinto como se houvesse uma espécie de magia nessas áreas. Sempre há algo novo para aprender que faz a gente pensar: como é possível chegar a um resultado desses?

Você ficou entre os 500 melhores alunos do país em matemática por quatro vezes. Como foi sua preparação para a olimpíada do conhecimento?
Disciplina, disciplina, disciplina. Porém, na época, para mim era uma diversão. Eu não possuía internet, nem dispositivos eletrônicos como celular, computador ou videogame e, desse modo, consegui dedicar de quatro a seis horas por dia de estudo às olimpíadas.

Qual foi a sensação de receber reconhecimento nacional e até a homenagem do presidente da República?
Até hoje é muito difícil descrever o que senti naquele momento. Foi uma mistura de vários sentimentos intensos e simultâneos.

Quais olimpíadas do conhecimento você conquistou medalhas?
Na OBMEP (Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas), conquistei cinco ouros e duas pratas.
Na OBA (Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica), conquistei cinco ouros e uma prata.
Também conquistei uma medalha de bronze na Olimpíada de Língua Portuguesa.

Para você, qual a importância das olimpíadas científicas? Elas te ajudaram de alguma forma?
No Brasil, os alunos que têm dificuldades — ou mesmo aqueles que não estão “nem aí” para os estudos — são muito valorizados. Eles recebem aulas extras, atenção especial do corpo docente, e os professores até reduzem o nível de ensino para se adequar a eles.
Porém, a minha crítica não é em relação à inclusão dos alunos que, por algum motivo, têm suas dificuldades na sala de aula, mas sim à falta de incentivo aos alunos que possuem grande potencial.
Essas olimpíadas foram a única iniciativa realmente criada para valorizar esse grupo.
No meu caso, é difícil dizer de que modo as olimpíadas de conhecimento mudaram minha vida — pelo simples fato de a terem mudado por completo.

Você acredita que elas são ferramentas para descobrir talentos e motivar os jovens nos estudos?
Sem dúvidas. A OBMEP, por exemplo, provou que os talentos estão distribuídos de forma igualitária por todo o território nacional, e não concentrados nas grandes metrópoles.
Essas ferramentas ajudam a motivar os jovens nos estudos, porém ainda não é o suficiente. Deveria existir uma política voltada especialmente para isso.

Ricardo, como foi crescer no sertão do Ceará enfrentando tantas dificuldades e descobrindo, ao mesmo tempo, o amor pelo estudo?
A total falta de acesso, tanto físico quanto a conteúdo didático, foi um grande desafio. Lembro-me claramente de um momento em que consegui um livro de matemática já velho, de uma época muito antes de eu ter nascido.
Nesse livro havia equações, mas não explicava como resolvê-las. Então tive que fazer uma investigação profunda, como um arqueólogo, para decifrar aquele estranho “dialeto”.
E foi assim, por meio de pequenas conquistas e descobertas, que surgiu o amor pelo estudo.

Na sua trajetória, como foi o processo de alfabetização e a adaptação ao ambiente escolar?
Minha mãe me ensinou a ler, escrever e fazer as operações básicas de matemática. Como ela não tinha o ensino fundamental completo, não pôde me ajudar além disso. Então me tornei um autodidata.
No começo foi difícil, mas rapidamente peguei gosto pelos estudos.
Devido à falta de acesso, só pude ser matriculado na rede regular de ensino aos 17 anos, entrando direto no sexto ano. Porém, só frequentei aulas aos 19, já com minha segunda medalha de ouro na OBMEP.
A adaptação na escola foi um pouco estranha, pois, nessa época, eu já era reconhecido nacionalmente.

O que te fez seguir em frente mesmo diante das dificuldades?
Podemos dizer que foi falta de opções. Se pensarmos bem, não existe outro caminho para mudar de vida senão por meio dos estudos.
Claro que um pouco de disciplina ajuda bastante.

Que papel a família teve na sua jornada de superação e aprendizado?
Posso dizer que minha família foi quem possibilitou todas essas conquistas. Não importa o quão bom você seja, nunca conseguirá ir muito longe sem o apoio de outras pessoas — principalmente no meu caso, sendo uma pessoa com deficiência física.

Qual mensagem você pode deixar para estudantes que enfrentam dificuldades no dia a dia?
Toda e qualquer pessoa neste mundo já passou, passa ou passará por dificuldades. Isso, por mais estranho que pareça, é o normal.
Lembra dos problemas de matemática da escola? O objetivo deles não é “ferrar” com sua vida, mas sim te tornar mais capaz de enfrentar questões mais difíceis e complexas.
É dessa maneira que encaro as dificuldades do dia a dia.

Para encerrar: o que a matemática te ensinou e como ela impactou sua vida?
A matemática me fez enxergar o mundo com outros olhos. A parte lógica e de raciocínio nos ensina a traçar planos, e a parte numérica pode ser usada para representar o mundo físico.
Quando se aprende a usá-la da maneira certa, ela se torna uma ferramenta poderosa.

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