Enquanto muitas meninas ainda escutam que a ciência “não é para elas”, outras já estão ocupando esse espaço com medalhas, projetos, divulgação científica e sonhos bem definidos. No Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, celebrado em 11 de fevereiro, a Comunidade Científica Jr ouviu duas jovens mulheres e multimedalhistas em olimpíadas científicas que transformaram a ciência em caminho possível: Giovanna Queiroz, de São Paulo, e a comunicadora científica Larissa Paiva, do Ceará, mais conhecida como Larittrix.

Para Giovanna, a importância da data está diretamente ligada à representatividade. Segundo ela, muitas meninas crescem com a sensação de que a ciência não é um espaço que lhes pertence — percepção que começa cedo e se reforça ao longo da formação.

– Acreditar que a ciência não é para nós é algo muito presente. Trazer visibilidade para mulheres na ciência desde a infância mostra que podemos, sim, nos integrar nesse meio e conquistar um espaço nosso – afirma Giovanna.

Falta de referências femininas prejudica
Ela aponta que a falta de referências femininas é uma das maiores barreiras para meninas que desejam seguir nas áreas STEM. Essa ausência aparece desde os treinamentos até os resultados finais das competições científicas.
– Muitas vezes não temos contato com mulheres nesses espaços. Você tenta imaginar onde quer chegar e quase não vê mulheres lá. Isso acontece nos treinamentos, entre professores, e até no resultado dos próprios medalhistas – relata.
A trajetória de Giovanna reforça a força dessa discussão. Ela acumula medalhas de ouro na Olimpíada Brasileira de Astronomia (OBA) entre 2020 e 2025, medalhas na Olimpíada Brasileira de Física (OBF), além de conquistas em competições internacionais, como o International Young Physics Tournament (IYPT) e a Olimpíada Internacional de Astronomia e Astrofísica (IOAA), realizada em Mumbai, na Índia, onde recebeu menção honrosa. Em 2025, também conquistou aprovação em Astronomia na Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, cursa o cursinho ITA, com foco em Engenharia Aeroespacial.
– Não desistam quando sentirem que estão no lugar errado. Durante o processo, com certeza você encontrará outras mulheres como você — mesmo que esporadicamente — e com certeza valerá a pena todas as suas escolhas e sacrifícios – ressalta.
Machismo estrutural
Se Giovanna traz o olhar de quem viveu a ciência pelas olimpíadas, Larittrix amplia o debate para a estrutura social e educacional. Multimedalhista de olimpíadas científicas, Astronauta Análoga, Palestrante, Cientista cidadã e estudante de Pedagogia, Larissa Paiva nasceu na zona rural do Ceará e hoje atua a partir de Sobral (CE), levando ciência e acolhimento a meninas de diferentes realidades.

Para ela, o machismo estrutural atravessa toda a trajetória acadêmica das mulheres e afeta de forma ainda mais profunda meninas em idade escolar.
– A gente passa pelo machismo estrutural em todas as fases da formação. E, se isso já atrapalha mulheres adultas, imagina o impacto para meninas mais jovens – afirma Larissa.
Larittrix destaca que muitas meninas não chegam à ciência simplesmente porque não têm acesso ou contato com esse universo. A falta de estímulo na infância, segundo ela, limita carreiras que poderiam estar mais consolidadas no futuro.
As olimpíadas científicas
Nesse contexto, iniciativas educativas como olimpíadas científicas, projetos voltados exclusivamente para meninas, prêmios, ações de liderança em sala de aula e divulgação científica acessível têm papel fundamental. Para a comunicadora, incentivar meninas passa por confiar nelas, fortalecer a autoestima e apresentar a ciência como um caminho possível.

O Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, segundo Larittrix, também cumpre um papel de resgate histórico. “É uma data que existe para lembrar que sempre existiram mulheres na ciência, que existem agora e que vão continuar existindo”, ressalta.
Ao falar de desenvolvimento social, a comunicadora é direta: não há inovação sem inclusão. “Não existe desenvolvimento e não existe inovação quando a liderança científica é restrita a poucos grupos. A ciência precisa de diversidade para avançar”, afirma.
Para meninas que gostam de ciência, mas ainda não se veem como futuras cientistas ou pesquisadoras, tanto Giovanna quanto Larittrix deixam uma mensagem comum: persistir é essencial. Giovanna reforça a importância de não desistir quando o ambiente parece hostil. Larittrix completa com um convite à autoconfiança.
– Olhem no espelho e digam: ‘você é capaz’. Porque você é. O céu não é o limite – conclui Larittrix.
As trajetórias das duas mostram que, quando há incentivo, visibilidade e acesso, meninas não apenas entram na ciência — elas permanecem, transformam e abrem caminho para muitas outras.
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