Da expectativa à inovação: estudantes falam sobre competições com satélites e o futuro da engenharia espacial

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Tibérius Drumond
estudantes falam sobre competições na ciência com satélites e o futuro da engenharia espacial - olimpíadas científicas - olimpíadas do conhecimento

O primeiro videocast da Comunidade Científica Jr trouxe uma conversa que ultrapassou o relato de uma competição universitária. Os integrantes da equipe UERJ.Sats compartilharam momentos de tensão, superação, inovação tecnológica e reflexões profundas sobre o que significa fazer engenharia no Brasil, principalmente na área de satélites.

Entre satélites lançados a 27 quilômetros de altitude, testes no INPE, premiações e noites sem dormir, a entrevista revelou algo maior: como a universidade pode ser um laboratório real de protagonismo científico.

A expectativa antes do anúncio

Um dos momentos mais marcantes da entrevista foi o relato da competição Cube Design. A equipe enfrentou problemas técnicos dias antes da apresentação. Um dos componentes centrais do satélite, o Raspberry, uma placa de computador embarcada no cube.sat, queimou praticamente na véspera. A tensão era evidente.

Durante a cerimônia de premiação, quando o terceiro lugar foi anunciado para outra universidade, veio o pensamento inevitável: “Ou é primeiro ou é segundo”. A expectativa cresceu. O anúncio veio direto: “UERJ”.

A surpresa não foi apenas pelo resultado, mas pelo caminho até ele. A equipe havia passado por falhas técnicas, improvisos e ajuda de outras equipes. O momento simbolizou mais do que um pódio, representou a confirmação de que estavam competindo em alto nível.

O que é, afinal, um CubeSat?

Ao longo da conversa, os estudantes explicaram ao público o que muitas vezes parece abstrato. Um CubeSat é um satélite modular, normalmente com dimensões de 10x10x10 centímetros por unidade. No caso do projeto apresentado, tratava-se de um modelo 3U, com 30 centímetros de comprimento.

Por trás dessa estrutura compacta existem sete subsistemas trabalhando em conjunto: controle de atitude, telemetria, suprimento de energia, computador de bordo, estrutura, programação e integração eletrônica. Cada parte precisa funcionar perfeitamente para que o conjunto opere em ambiente extremo.

O satélite apresentado passou por testes de vibração e ciclagem térmica no Laboratório de Integração e Testes do INPE, suportando variações de temperatura negativas. A experiência reforçou um ponto importante discutido na entrevista: o Brasil possui infraestrutura espacial robusta, ainda pouco conhecida pelo grande público.

Satélites autorreparáveis: a proposta ousada

Entre os projetos desenvolvidos pela equipe, o CariocaSat chamou atenção pela originalidade. A ideia surgiu a partir de um problema real da engenharia espacial: o custo altíssimo de enviar peças de reposição ao espaço.

A proposta foi incluir uma mini fresadora CNC dentro do satélite, capaz de realizar pequenos ajustes em circuitos eletrônicos. Miniaturizar uma máquina industrial para caber em um CubeSat foi descrito como um dos maiores desafios técnicos do grupo.

Embora ainda em estágio de prova de conceito, a ideia dialoga com uma tendência global: aumentar a autonomia e a vida útil dos satélites, reduzindo custos e contribuindo para a sustentabilidade orbital.

Segundo os integrantes, a proposta foi considerada pioneira dentro do contexto das competições em que participaram e já está sendo preparada para apresentação científica.

Engenharia além da teoria

Um dos pontos mais interessantes da entrevista foi o impacto pessoal que a equipe relatou. Alguns integrantes afirmaram que entraram na graduação sem plena identificação com o curso. A participação na equipe mudou essa perspectiva.

Ver a aplicação prática da teoria, testar modelos 3D antes da fabricação, lidar com falhas reais e resolver problemas concretos fez com que a engenharia deixasse de ser apenas conteúdo de sala de aula.

“Você comemora quando tem um erro diferente”, comentou um dos integrantes, explicando que cada falha traz aprendizado. A frase resume uma das lições centrais do projeto: errar faz parte do processo científico.

O alerta que poucos fazem: burnout na engenharia

Se por um lado houve conquistas, por outro também houve desgaste. Em um dos trechos mais sinceros da entrevista, uma das integrantes relatou ter enfrentado burnout durante o período de preparação para competições.

Rotina de laboratório em finais de semana, feriados, noites dormindo poucas horas e pressão por resultados geraram exaustão física e mental. “Eu estava insuportável”, afirmou, reconhecendo que negligenciou alimentação e descanso.

O relato trouxe uma reflexão importante: excelência acadêmica não pode custar a saúde. O conselho foi direto para estudantes do ensino médio, universitários e membros de equipes científicas: planejamento, metodologia e cuidado com a saúde mental são tão importantes quanto o conhecimento técnico.

Engenharia é para todos

Outro ponto forte foi a mensagem de inclusão. A equipe destacou que a engenharia não é exclusiva de um perfil específico. Não depende de origem social ou tradição familiar na área. Depende de interesse, esforço e oportunidade.

A fala direcionada às meninas e mulheres que desejam seguir na ciência foi enfática: o caminho pode ser difícil, mas é possível. Mostrar competência, ocupar espaço e persistir fazem parte da trajetória.

A entrevista terminou com reconhecimento ao Movimento Meninas Olímpicas, reforçando a importância de ampliar a presença feminina nas áreas STEM.

O que fica dessa conversa

Mais do que mostrar um satélite funcionando, o videocast revelou os bastidores humanos da ciência. Expectativa, erro, inovação, exaustão, aprendizado e superação caminharam juntos.

A história da UERJ SATS demonstra que a corrida espacial contemporânea também passa pelas universidades brasileiras. Em laboratórios, impressoras 3D e computadores, jovens engenheiros estão discutindo soluções para problemas globais, como sustentabilidade orbital e redução de custos no espaço.

A ciência, como ficou evidente na conversa, não começa apenas nos grandes centros internacionais. Ela começa na curiosidade, na coragem de tentar e na disposição de continuar mesmo quando algo dá errado na véspera da competição.

Ciência é também lugar das meninas e das mulheres

Ao final da conversa, ficou também um recado direto para as meninas que sonham com a ciência, mas ainda se sentem deslocadas. O caminho pode ser exigente, competitivo e, muitas vezes, solitário — mas ele é possível. Há espaço, há competência e há futuro. Persistir, buscar apoio e acreditar na própria capacidade são atitudes que transformam insegurança em protagonismo. A presença feminina na engenharia e nas áreas espaciais não é exceção: é necessidade. E cada nova estudante que decide continuar amplia esse espaço para as próximas gerações.

CCJr estreia videocast sobre satélites e ciência aeroespacial com universitários do UERJ.Sats

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